terça-feira, 30 de maio de 2017

MCMXCIV


Minha mãe sempre disse que a vida era como uma caixa de chocolates. Como pode uma mãe trabalhadora com três filhos comprar Nikes e Reeboks que custam cento e vinte dólares cada? Era um ano comum que começou no sábado; e a terça de Carnaval em quinze de fevereiro: o ano do cão, na China, dia onze; um mês que nunca tem a mesma quantidade de dias.
As crianças roubam esses tênis. Às vezes, matam por eles. Como a caixa de chocolates: nunca sabemos o que vamos pegar. Uma laranja em cima da mesa, chinelos na porta de entrada. Você passa pelo corredor aberto e ao longe vê o quarto, à esquerda; banheiro, à frente; outro quarto, à frente, à direita. Chegamos.
Vinho Travessia, pela metade. Safra dois mil e quinze, Chile. Será que veio mesmo de lá? Será que você vem? Tenho te esperado desde as nove. Essa sua safra é excelente, dizem. Você diz que está jantando. Seu pai, na cidade, burguês. Eu tomei cachaça, jantei. O restaurante é chique, nunca fui lá, mas também tomaria cachaça e jantaria e deixaria alguém me esperando, por mais que não quisesse. Estão pagando pra mim.
Podemos ir? Só mais quinze minutos. Ah, talvez eu não tenha dito a vocês o quanto nossa família é feliz. Veja. Já conversei com todos. Todos irão concordar com vocês. Eles estão felizes? Claro que sim. Há cachaça e jantar. No restaurante chique. Como não estar feliz?
Você se encontrou comigo, e me esperou as horas. Você estava bêbado. Desci a pé de lá. A pé? Jura? Obrigada por me esperar, sério. Você não sabe o quanto é importante pra mim. E nos conhecemos a esse ponto?
A língua e as mãos envelheceram mais rápido, de fato. Não ousaria outra explicação. Uma ansiedade tomava o hipnotismo curioso de arranjos que resistem, ainda, às tentações. Não haveria prazer maior que aquele. O fogo, faísca-eletricidade. Essas coisas. Amenidades que servem de metáfora para aquilo que, sabemos, não há metáfora suficiente. Figuras de linguagem transitam por nós: hipérboles em minha cama, metonímias nas genitálias, símiles de ano de nascimento.
Vejo dois rostos que se misturam em minha frente. Um branco, outro preto. Os dois barbados. Um com olhos de musgo-sangue-suga e outro com olhos amendoados-jabuticabais. Perco-me nessa natureza de olhos que me comem, aqueles mesmos olhos oblíquos, dissimulados. Ninguém traindo ninguém.
Saciados de linguagem, lambem os dedos de leite e de mel, no travesseiro, e as plumas espalham-se na imagem do lençol que está suando, ainda, os gostos teus.

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