terça-feira, 13 de junho de 2017

Agorafobia

 

 Gotta let my mind find another space.
So if you're gonna hurt me
Why don't you hurt me a little bit more?
["Hurt Me" - Låpsley]


Alguém mais se sente culpado quando eles ficam dentro de casa o dia todo? Eu me sinto um lixo agora porque eu deveria estar na rua com meus amigos ou tentando arrumar um emprego. I just can’t now. Eu tenho medo de ir lá fora, agora. Na maior parte dos dias eu consigo sair de casa mesmo que eu me sinta muito ansiosa sobre isso. But I just can’t today. Entretanto, agora que vejo que passei o dia inteiro dentro da casa, eu me sinto mal, eu me sinto mal como se eu tivesse desperdiçado meu dia. Eu deveria estar fazendo algo produtivo.

Sim. Eu me sinto limitante quando eu escrevo alguma coisa, porque pode parecer que eu sou preguiçosa e não estou trabalhando. Agora, meu marido deficiente físico tem que fazer viagens ao mercadinho sozinho porque eu não posso. I just can’t get out. E eu me sinto culpada e inútil.

Três da manhã e estou acordada. O gato decidiu trazer seus brinquedos para cima da minha cama para que eu possa brincar com ele. São pompons e ele adora procurar por eles. Eu jogo um no corredor. Quando ele traz de volta está encharcado. Eu acho que ele parou perto do pote de água e bebeu e colocou o pompom na água. Então, agora, eu tenho um pompom úmido em cima da minha cama. Gato maluco.

Agoraphobia by Ellia
 
Eu me sinto über culpada o tempo todo. Meus filhos querem ir cá e lá e em todo lugar e eu fico... Ah, não, está fechado hoje... Eu tento really hard sair com eles porque eu sei que é foda ficar trancado em casa, ainda mais num apartamento dois quartos de fundos. Eles literalmente correm em círculos e se batem contra a parede até que eu, ah, beleza, vamos. Infelizmente, agora, está super quente lá fora, então fica mega difícil ir até o parque.

Não. Minha família faz eu me sentir assim. E eu não sinto que desperdicei o meu dia porque é normal pra mim estar on e off por dez anos. Mas, mesmo que isso, agora, soe contraditório, eu realmente acho, às vezes, quem dera eu pudesse sair como as pessoas normais. Isso não é viver. 

Bem, eu finalmente desisti e fiz a ligação para o CVV. Medicamentos e terapia não têm ajudado e o tempo está running out, o dinheiro e a paciência, também. Eu não trabalho há mais de um ano e eu tenho um bebê para cuidar sozinha. Alguém tem algum conselho? Eu estou surtando porque eu conheço pessoas que ligaram para lá inúmeras vezes. Eu tive sorte. Eles perguntam: como vai você? Mas eu não posso estar lá fisicamente. E eu não sei se isso é bom ou ruim.


 

domingo, 4 de junho de 2017

Gente que não


Faz três ou quatro meses que tento parar de fumar. Só me aproximo do cigarro através da fumaça de tragadas alheias enquanto ando pela rua. Sem hesitar, sigo-as como um desenho animado. O envolvimento pela fumaça em formato de braço que vai flutuando até a torta de maçã esfriando na janela do vizinho.

- Vai ser como aquela música, quer ver?
- Que fala de garotos bonitos que não me ensinaram coisas que eu não conhecia?
- Sim. Das garotas bonitas que sempre ficam pra trás e precisam ser sensuais.
- Vai. Pode dizer. Eu não dou a mínima.

Oportunismo. Apaixono-me facilmente. Parece tão fácil lá de baixo, tão calmo. Não é a mesma sensação que tenho ao acordar: levanto-me, olho pela janela, acendo um. A mensagem pisca na tela do celular.

- Você vai à festa hoje? Vi seu nome na lista de interessados.
- Sim, quero ir, mas não tenho companhia.
- Olha minha situação atual.

Recebo uma foto dele deitado, talvez nu, por baixo das cobertas. Digo para ele sair dali. Ele diz que está muito desanimado. Eu caio, como sempre, em sua armadilha: sou eu quem, agora, o chama.

- Mas quem vai contigo? Vamos nós dois?
- Não. Vou com ele. A gente se encontra lá.
- Eu acho que podemos beber em algum lugar antes.

Nos encontramos na casa dele. Os pais dele estão dormindo e, nós, silenciosos, damos fim às meias garrafas de várias bebidas que estragavam na geladeira. Confere: celular, carteira, chave. Os três cês essenciais de alguém que sai à procura de outrém para levar pra casa na volta.

- Estou aqui com pessoas que nunca vi na minha vida.
- Viemos para essa festa juntos.
- Posso fumar aqui com vocês?
- Fique à vontade.
- E vocês três são o que? Vocês se pegam entre si?
- É. Algum problema com isso?
- Nenhum. Imagina. Que isso. Não. Acho legal. Você pega mulher também?
- Depende.

Dançamos e você abraça sua ex. Ela está me irritando muitíssimo agora. Imagino-me com um martelo e alguns pregos, fixando minha cabeça em você, em algum lugar, para que você nunca mais ouse abraçar alguém na minha presença. Eu olho e você beija a testa dela. Não a beije na testa, eu imploro, é o único lugar que você não deve beijar alguém. É estupidez.

- Será que ela entendeu que é brincadeira?
- Ela ainda acredita que meu nome é aquele que eu falei.
- E você lembra qual você falou?
- Sim, ela gritou da janela, olhou na minha direção, não tive como não dizer.

Outro peso: uma foto de uma noite com eles. Essas plataformas tecnológicas de filtros e histórias diárias não servem para nos mostrar a vida como ela é, mas para falsificar qualquer aspecto de vida que se torne presença. Eles devem ter chegado às seis. Aquela padaria tem o melhor café do centro da cidade, me disse uma vez uma colega. Eu acreditei.

- Eu ainda não fiquei com mulher. Estou na fase de sentir atração, mas insegura.
- Eu te entendo. Já tive essa fase também. Fiquei com três mulheres até hoje.
- Você ficou só de beijo?
- Sim.
- Mas é uma sensação boa beijar uma mulher?
- Sim. Uma amiga minha diz que é macio. Eu concordo.
- Acho que eu não namoraria uma mulher.
- Eu entendo.
- E como vocês se conheceram?

O vinho nem ficou pela metade ainda e ele já está bêbado. Será que algum dia ele vai chegar aqui sem estar bêbado? Ele diz que vai, ele sempre diz que tenta, mas a vontade é maior do que ele. Ele sabe que eu estou conectada demais a ele para me preocupar com isso. Ele me responde às cinco da manhã que acordou morto. Você me desculpa, não vai rolar. Eu desculpo sim. Eu desculpo sempre.

- Eu vou me machucar.
- Você quer que eu seja uma coisa que eu realmente não sou.
- Eu posso ir pra sua casa hoje?
- Tem sempre algo que eu estou pensando. Sabe o que é?

Não pede desculpa por isso, ele diz, mas me responde na grosseria. Claro que não, filha. Você tá bem? Eu digo de boa. Ele diz indo. Claro que não, filho. Você nunca pode conversar e eu não entendo porque você necessita tanto da minha atenção. Você não me quer. Você só quer que eu não supere você. Não é você que está vindo para minha casa esta noite.

- Quando as luzes apagarem, você estará lá?
- Quando eu te deitar na minha cama, dizendo o que é certo e errado?
- Todo é autocontrole é muito emocional.
- É. Muito emocional.
- Tivemos algo que nunca aconteceu.
- É. Todo mundo tem uma história assim.
- Por que você faz questão de ser a minha?

Ele bem me quer mal. Ela mal me quer bem. Sem homens triviais. Sem mulheres triviais. Sem meninos triviais. Sem meninas triviais. Terra de ninguém. Havia flores, velas, amor e aromas gastronômicos aromáticos culposos. Ele deve me odiar agora. Quero quebrar meu espelho em pedacinhos com um soco, catar os cacos e abraçá-los. Quero sentir metade da dor que causei. Eu não vou dizer, eu não vou falar. Nós sempre achamos um jeito. Sem pessoas triviais. Sou ordinária. Sem um mundo trivial. Extraordinária.

Você topa o pão de batata velho desejando o câncer do corpo, eu, tudo aquilo que eventualmente pode se ter mas que não prometia absolutamente nada. Talvez eles se amem mesmo! A única coisa que te peço. Por favor, me prometa: guarde certas coisas no que resta além de nós.